PL: É Cabo Verde um país historicamente inovador?
... o espírito e a capacidade de inovar são hoje a nova riqueza das nações. PL: Foi Reitor da Universidade de Cabo Verde. Quais os desafios que se lhe colocam ao nível da liderança académica em Cabo Verde? ACS: Desafios enormes. Em primeiro lugar, fazer com que as autoridades académicas, o Reitor e os integrantes dos órgãos colegiais de gestão, os conselhos científicos, pedagógicos, os conselhos diretivos das unidades orgânicas, tenham um projeto de academia e o persigam. Ou seja, que não governem as academias meramente gerindo rotinas. Por isso, a primeira caraterística de uma universidade empreendedora, o que não quer dizer assemelhar a Universidade à Empresa, é ela ser uma universidade que se auto questiona, que se interroga permanentemente da pertinência da sua oferta formativa, da eficiência e eficácia do seu currículo, da qualidade e relevância da sua agenda científica. O autoquestionamento e o debate interno conduzem a outra dimensão importante da cultura universitária empreendedora que é a auto-avaliação. A liderança universitária esclarecida é aquela que monitora os seus indicadores, toma nota e tira as consequências. Mas é também aquela que mantém um diálogo permanente com a sociedade e não aceita enclausurar-se no conforto das academias. Digo isso porque o diálogo com a sociedade é normalmente tenso, complexo e desafiante. A legitimidade atual das academias depende muito desta capacidade de diálogo com a sociedade. PL: Que caraterísticas de liderança devem hoje ser desenvolvidas no ensino superior, tendo em vista um melhor desempenho dos líderes do amanhã?
PL: Quem serão os líderes do futuro em Cabo Verde?
PL: Para si, o que é o fundamental da liderança? ACS: Capacidade de persuasão e de mobilização daqueles que constituem o meu meio envolvente. Aquele que vive e trabalha “orgulhosamente só”, não é líder, mesmo que seja o mais lúcido e o mais conhecedor de todos. O líder tem sempre que dominar a comunicação, a dinâmica dos afetos e saber “agir com”. É isso que é o fundamental da liderança. O líder tem sempre que dominar a comunicação, a dinâmica dos afetos e saber “agir com”. PL: Qual foi a situação que o fez aprender mais em termos de liderança e o que aprendeu? ACS: Em termos pessoais, ter integrado a equipa luso-cabo-verdiana que realizou a História Geral de Cabo Verde. Eu era jovem, acabado de sair da universidade, com uma imensa motivação para a investigação, mas despreparado para enfrentar a complexidade das relações humanas à volta da produção de um tipo de conhecimento sensível, num centro de investigação em Portugal, com gente de outra cultura. Enfim, um verdadeiro choque no bom sentido do termo. Outra experiência foi ter dirigido a primeira universidade pública do país. O que aprendi de ter participado nestes dois projetos inovadores é que para casar o sonho com a realidade, é preciso, em primeiro lugar, a coragem de ousar, mas, em segundo, ser resistente e persistente. No dia-a-dia, ousar é uma experiência dolorosa. Os dois projetos contavam à-priori com imensas resistências. Ambos deram frutos importantes para a sociedade cabo-verdiana de hoje. Tenho orgulho nesta trajetória. PL: Quais são os três principais desafios que confrontarão os líderes políticos nos próximos 10 anos? ACS: O primeiro grande desafio dos líderes políticos do nosso tempo é manter a legitimidade das instituições representativas. Não está fácil consegui-lo. A massificação da educação e as novas tecnologias de informação e comunicação, permitindo o desenvolvimento das redes sociais no espaço virtual e as novas formas de interação intracomunitária, parecem estar a romper o antigo equilíbrio entre a componente representativa e a participativa das atuais democracias. A legitimidade conquistada nas urnas, consagrada até há bem pouco tempo como sendo bastante para o exercício consentido do poder, torna-se nestes dias que vivemos claramente insuficiente. Governantes, deputados, autarcas vêem-se hoje constantemente ultrapassados por movimentos de cidadãos, que têm a sua voz ampliada pelos novos média, mas também pelos tradicionais, seduzidos cada vez mais pelas dinâmicas de “base”, sobretudo quando estas questionam as instituições representativas. A questão é conter-nos, como disse um analista político brasileiro recentemente, da tentação de achar que a necessária e a bem-vinda voz da rua, seja a “voz de Deus”. É preciso aproximar as instituições representativas dos cidadãos e também fazer o contrário. O outro desafio é conseguir, nas condições de grande pressão social, conciliar o presente e o futuro, mesmo tratando-se de um futuro próximo. Os políticos atuais parecem estar a perder força suficiente, parecem estar a deixar de beneficiar de graus de confiança necessários para governarem em nome de um projeto de futuro. Para pedirem sacrifícios, para fazerem passar uma estrutura de prioridades que tenha a ver com o médio prazo, é necessário aumentarem a capacidade de persuasão, o que nem sempre se consegue nos períodos de campanha eleitoral, porque estes foram transformados em puro espetáculo de luz e barulho. A comunicação pedagógica e serena, os ctos de prestação de contas e de accountability, os mecanismos de transparência podem gerar confiança para que os cidadãos confiem nos investimentos políticos que eles próprios fizeram em algum momento. O endividamento feito em nome de todos pode ser virtuoso ou não. Pode criar futuro ou delapidá-lo. Os cidadãos nos tempos que correm, querem ver, conferir e sobretudo seguir, seguir de perto. O mandato está a deixar de ser um ato de transferência de poder. A confiança nos representantes políticos e a fé na tecnicidade das organizações internacionais baixou, fruto de desilusões. Mas sem confiança, não há investimento e sem este não há futuro, afinal de contas, a ideia de futuro é o motor da política no nosso tempo. Restaurar a confiança e reinscrever a ideia de futuro, ou as ideias de futuro, é a própria salvação da política. Como me pediu três desafios, vou ao terceiro: o terceiro é a meu ver, dominar o conhecimento científico e tecnológico, na acepção de lhe dar sentido político e ético. O velho problema de Ciência com Consciência, como definiu Edgar Morin nos anos 80. O potencial do conhecimento genético, da nanotecnologia, da neurologia, é enorme e é preciso para ele um uso virtuoso. As causas da solidariedade, do ambiente, da segurança alimentar, do respeito à diversidade cultural devem dirigir as aplicações da Ciência, convertendo-se em motivações da criação do conhecimento. Só assim salvaremos o planeta e a Humanidade. PL: Quais são as três qualidades mais importantes para um líder político nos próximos 10 anos? ACS: Compromisso ético, um projeto de prosperidade para os seus concidadãos e a capacidade de comunicar e implementar o seu projeto. PL: Onde mais tendem a falhar os líderes políticos? ACS: Na comunicação. Falhando na comunicação, tudo o resto fica em causa. Continue a ler:
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