As americanas Carly Fiorina e Meg Whitman têm sido notícia nos últimos tempos por diferentes motivos. A primeira é candidata nas primárias do Partido Republicano para a corrida à Casa Branca, a segunda é CEO da HPE – Hewlett Packard Enterprise. E têm algo em comum: foram ambas CEO na Hewlett-Packard antes de a multinacional ter avançado com a cisão em duas empresas autónomas (concretizada no início deste mês). Além de que são duas profissionais do sexo feminino, pormenor que num mundo melhor não seria sequer digno de nota.
Esse mundo melhor seria diferente do nosso, em que, nos EUA, por exemplo, a percentagem de CEO do sexo feminino nas empresas da Fortune 500 é de apenas 5% (num total de 24 mulheres), ainda que o sexo feminino represente 45% da força de trabalho no índice S&P 500. Nas empresas com mais de 100 funcionários ou com receitas acima de 50 milhões de dólares (cerca de 47 milhões de euros) a percentagem é de 17%, segundo um estudo realizado pela empresa de research Mintigo.
Em Portugal, só 9,9% dos lugares nas administrações das empresas cotadas em bolsa são ocupados por mulheres, sendo que não há uma única executiva a liderar as companhias que constam no PSI20, de acordo com o estudo “Onde param as mulheres?”, apresentado em março deste ano pela Informa D&B. Por comparação com 2011, o número de mulheres em cargos de liderança empresarial no solo português aumentou 5,3 pontos percentuais, para 28,2%. No entanto, o grosso da gestão é apanágio dos homens – cerca de 44,9% das organizações têm uma equipa de liderança só no masculino, e 12,2% são compostas apenas por mulheres (mais 2,2 pontos percentuais que em 2011).
Voltando à pesquisa da Mintigo, foi constatado que, nos EUA, as CEO lideram empresas cujas receitas por funcionário são até 18% superiores face as receitas das lideradas pelos CEO. E que, em geral, as empresas comandadas por mulheres partilham as seguintes características por comparação com as conduzidas por homens:
- Equipas de marketing mais robustas;
- Níveis de publicidade mais altos;
- Planeamento de eventos mais forte;
- Maior presença online.
Mais: estudos recentes destacam a “inteligência emocional” superior das mulheres – a capacidade de “ler” uma situação avaliando corretamente as emoções das outras pessoas, bem como a própria, o que resulta num melhor desempenho das tarefas. E são melhores colaboradoras, o que explica em parte por que as organizações com maior proporção de mulheres em cargos de topo superam as restantes.
Por que não há mais mulheres CEO?
Apesar do aumento do número de mulheres no mundo empresarial, os escalões mais altos ainda são um velho clube de rapazes. De acordo com o 2013 Chief Executive Study, apesar de alguns avanços, os conselhos de administração são compostos sobretudo por homens. Além de que eles tendem a vê-las de forma mais crítica – uma das razões por que as mulheres em posições de topo são forçadas a sair mais rápido que os homens quando uma empresa está em crise; ou, talvez de forma mais significativa, quando elas desafiam a hierarquia masculina.
Sharon Bolton, professora de análise organizacional na Universidade de Stirling, na Escócia, observa que as mulheres líderes ocupam principalmente funções que exigem competências relacionadas com as pessoas, como recursos humanos, relações públicas e comunicação, por exemplo. Já os cargos de topo em áreas como finanças, pesquisa, operações e administração geral são tipicamente dominados pelos homens. Dito de outra forma, as mulheres são vítimas de “exclusão institucionalizada”.
Liderança no feminino compensa
Embora o género não devesse ser a principal razão para contratar (ou não contratar) alguém (por razões legais e morais), se apostássemos na igualdade de géneros, um CEO do sexo feminino poderia compensar a sua empresa. Literalmente.
Um algoritmo desenvolvido por Karen Rubin, diretora de produto no hedge fund Quantopian, correlacionou a liderança feminina com o desempenho das ações em bolsa de empresas na Fortune 1000 entre 2002 e 2014. E o que descobriu? – Que as empresas lideradas por mulheres garantem aos investidores um retorno de 340%, por comparação com os 122% do índice de referência S&P 500.
Uma companhia pode ainda ter mais motivos para contratar um CEO do sexo feminino se estiver com problemas. Estudos sugerem que as mulheres são mais propensas a ser escolhidas para papéis de liderança para gerir empresas em dificuldades. Isto porque são vistas como tendo uma personalidade mais adequada para gerir crises, como sendo mais intuitivas, compreensivas e simpáticas quando comparadas com os homens. Além disso, as mulheres são vistas como mais capacitadas para gerir pessoas e situações durante períodos de stress, bem como para trabalhar nos bastidores e – embora este não devesse ser um motivo para contratar um CEO no feminino – de desempennharem o papel de bode expiatório. Como exemplos de mulheres CEO nomeadas para recuperar companhias com problemas, temos Marissa Mayer no Yahoo e May Barra na GM.
As mulheres têm no entanto uma desvantagem, o chamado “penhasco de vidro”, um fenómeno em que as CEO são por norma despedidas de forma mais rápida que os homens por não alcançarem os resultados desejados; um estudo de 2013 realizado junto de 2500 empresas públicas aponta para uma maior percentagem de CEO do sexo feminino (38%) forçadas a sair em relação aos homens (27%). Tendência que só “reafirma a crença de que, de qualquer maneira, as mulheres não são bons líderes”.
Em última análise, há uma infinidade de fatores a considerar ao contratar um CEO. Num mundo melhor, a questão de género não se colocaria. Mas mesmo que acabe por contratar um homem, pode ser uma boa ideia que ele pense mais como uma mulher.
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