Arménio Rego: Nelson Mandela: 8 razões explicativas do seu legado de liderança
Um “santo secular”.
Mandela costuma ser representado como o “santo secular”. A denominação (que o próprio não se tem cansado de reputar como indevida) faz jus a uma vida corajosamente dedicada a uma causa: a remoção do apartheid e o respeito pela dignidade de todos os seres humanos. Quase três dezenas de anos na prisão não deixaram Mandela vencer-se por sentimentos de vingança para com os “inimigos”. Em liberdade, como Presidente do seu país ou como figura inspiradora, evitou que o revanchismo imperasse e criou condições para a reconciliação nacional. Importa compreender as razões explicativas do seu legado e do seu exemplo como líder. A descrição que seguidamente apresentarei não conseguira descrever a magnitude da sua influência – apenas pretende suscitar a reflexão sobre o que se pode aprender com a liderança desta figura impar.
Perseverança corajosa em prol de uma causa nobre
Mandela dedicou toda a sua vida adulta a uma causa nobre, que o transcendeu. Advogou generosa e graciosamente quem não possuía recursos para lhe pagar os serviços. Arriscou a sua integridade física e a sua saúde mental – e, com essa escolha, gerou enorme sofrimento na sua própria família. Mesmo sabendo que poderia ser condenado a morte, manteve-se fiel aos seus valores e ao princípio do respeito pela dignidade humana. Fez corajosamente “o que tinha que ser feito”, apesar dos riscos e das adversidades. Como humano consciente, experimentou medo – mas não se deixou tolher.
Compromissos morais
Mandela, como muitos outros líderes (na vida politica mas também na empresarial), enfrentou dilemas complexos que o impeliram a enveredar por compromissos morais geradores de grande controvérsia. Foi, por isso, severamente criticado, inclusive pelos seus companheiros de viagem. Em determinado momento, apesar de prezar as vias pacíficas, entendeu que a prossecução da causa requeria o recurso a violência (embora procurando poupar vidas humanas). Lideres como Thatcher tomaram-no como terrorista. “Abraçou” antigos inimigos – para poder alcançar um bem maior e pacificar a Africa do Sul.
Perdão
A capacidade de perdão de Mandela e reconhecidamente incomparável. Apertou a mão, em público, ao juiz que o condenara ao degredo. Para a sua tomada de posse como presidente da Africa do Sul, convidou guardas da prisão onde passou uma parte significativa da sua vida. Com esses e outros atos de perdão, promoveu a reconciliação entre os sul-africanos. Sem tais atos, e muito provável que o país se tivesse transformado num amplo campo de rancor e de sangue.
Prudência e sensatez
Se não tivesse sido acompanhada de prudência e sensatez, a coragem de Mandela poderia ter-se transformado em obstinação cega e perigosa. Teve oportunidade de conquistar a liberdade quando o motorista que o conduzia o deixou sozinho no automóvel. Mas contrariou o seu impulso. Se tivesse aproveitado a ocasião para fugir, teria gerado enorme turbulência no pais e hipotecado a nobre causa. E teria traído a confiança do motorista.
Estatura moral
Quem privou com Mandela, inclusive quem esteve do outro lado da “barricada”, destaca a sua grandeza moral, o seu magnetismo inspirador. Um procurador que participou no julgamento que o condenou a prisão perpétua ter-lhe-á confidenciado, em conversa privada, quanto lhe custava participar em tal processo. Mandela terá retorquido com uma resposta “compreensiva”: afinal, considerou Mandela, o procurador estava a cumprir o seu papel e era fruto das circunstâncias!
Trabalho de “equipa”
A prossecução das causas que Mandela abraçou foram bem-sucedidas porque milhares de seguidores sacrificaram as suas comodidades e (muitos) as suas próprias vidas. A liderança sempre foi e será um trabalho de equipa, não um empreendimento solitário.
A importância dos símbolos
Mandela soube usar primorosamente os símbolos para prosseguir a causa. A indumentária tradicional com que se apresentou no julgamento que o condenaria a prisão perpetua veiculou tantas mensagens quantas aquelas que as suas celebres palavras transmitiram. O modo como se socorreu dos Springboks (a equipa de râguebi que se sagraria campeã mundial, em 1995), para unir um pais desavindo e sofrido com o seu passado, e igualmente ilustrativo. Naturalmente, os símbolos apenas mobilizam vontades e geram mudanças profundas quando os lideres que os usam são credíveis e inspiradores!
Os santos também pecam
Mandela, como todos os humanos, revelou fraquezas e fragilidades. Na sua juventude, era muito vaidoso (adorava vestir-se como ninguém!). Chegou a endividar-se e a gastar para além das possibilidades. O seu autoritarismo na vida privada/familiar tem sido mencionado por quem estudou a sua vida. As suas infidelidades matrimoniais são reconhecidas. Ele próprio chegou a referir-se a um tempo em que primou pelas “imoralidades”. Tomou decisões menos felizes. Mas tais pecadilhos Não tornaram a sua atuação menos nobre. No conforto das nossas vidas, não devemos arrogar-nos o direito de fazer julgamentos morais a quem tudo sacrificou, com generosidade e coragem, em prol de uma causa nobre.
Lideres que realmente contribuem para melhorar a existência humana
Recebi o convite para prestar este depoimento quando me encontrava em Myanmar, entre duas conferências na Asia. Acabara de ler a segunda biografia de Mandela e preparava-me para ler a primeira de Aung San Suu Kyi – premiada com o Nobel da Paz pelos seus esforços de democratização daqueles pais do sudeste asiático. Também ela sacrificou a sua comodidade pessoal. Também ela tem perseverado corajosamente por uma causa que lhe provocou (e a sua família) enorme sofrimento. Também ela “abraçou” inimigos em prol da construção de uma Birmania reconciliada. Também a ela lhe apontam fraquezas (incluindo algum autoritarismo). Também ela tem prosseguido um caminho apoiada por uma “equipa”. Mandela e Suu Kui são gigantes construtores de causas nobres. Há líderes que podem ter real impacto nas vidas da humanidade. As fraquezas humanas não os fragilizam – antes lhes conferem elevação. Tenhamos humildade para aprender com eles.
Arménio Rego é doutorado e agregado em gestão. Ensina na Universidade de Aveiro. É autor ou coautor de mais de quatro dezenas de livros nas áreas da liderança e da gestão de pessoas. É também autor ou coautor de mais de uma centena de artigos, sobretudo em revistas internacionais nas áreas do comportamento organizacional e da liderança/gestão de pessoas. Tem desenvolvido projetos de consultoria nestas áreas, e realizado dezenas de conferências, seminários, workshops e eventos de formação de executivos. Foi agraciado com diversos prémios, em Portugal e no estrangeiro.