A “família”, segundo Paulo Bento - Camilo Lourenço

  
A esta hora, depois de ler o título, o leitor deve estar a dizer “Lá vem o futebol outra vez!”. Ok, eu assumo: gosto de futebol. Não apenas do aspecto lúdico deste desporto, mas da parte do negócio, que move biliões de euros, e das questões de Liderança que personifica.

Camilo-Lourenco-Cronicas
É essa a razão que me leva a voltar ao futebol , em detrimento de outro tema que estou a adiar há semanas: a análise da Liderança no sector “informal” da economia. Mas porquê esta insistência no futebol? Por causa dos estilos de Liderança vistos sob o prisma da convocatória de Paulo Bento para o Mundial do Brasil. Logo no dia do anúncio dos 23 eleitos, o seleccionador nacional recebeu uma chuva de críticas. Porque não levou Quaresma (um extremo criativo), porque escolheu Rafa (sem provas dadas), porque optou por Postiga e Vieirinha (saídos de lesões) e Nani (com poucos jogos nas pernas) e porque deixou de fora Adrien e Danny…  

Vamos deixar de lado a clubite… e as simpatias pessoais por este ou aquele jogador, para tentar perceber a ratio das escolhas do seleccionador. O que explica a decisão de Paulo Bento? Duas coisas: estabilidade e coesão do grupo. Estabilidade porque nos 23 apenas entram seis caras novas. Coesão porque alguns jogadores foram escolhidos por fazerem parte do núcleo que esteve com Bento na qualificação para o Mundial. Foram eles que a garantiram…!

O que dizer destes critérios? O da estabilidade aceita-se. Embora se possa questionar se a entrada de (apenas) seis caras novas é suficiente para garantir a renovação da selecção nacional…

E o da coesão? Em vez de optar pelo “seu grupo”, o seleccionador não devia escolher os que têm, neste momento, melhor desempenho (a jogar melhor futebol)? “É um critério como outro qualquer”, dirão alguns. Mas a resposta é demasiado simplista. As escolhas de Bento mostram que tem um modelo de Liderança bem claro… e transparente: o seleccionador acredita que as batalhas só se vencem com um inabalável espírito de grupo. Porque é esse espírito que transmite a força que leva os jogadores a transcenderem-se em momentos difíceis. É isso que leva um grupo a ser mais do que a simples soma das várias partes que o constituem.

O seu modelo Liderança é garantia de resultados? Não sabemos. O que sabemos é que é um estilo próximo do de Scolari: “família” pequena, muito chegada, por quem o Líder dá tudo. Mas a quem, em contrapartida, exige tudo também (sob pena de os que quebram esse “contrato” serem irradiados da “família”).

Scolari já mostrou que o seu modelo de Liderança consegue “entregar” (no sentido de deliver): já foi campeão mundial (pelo Brasil), já ficou em 2º lugar no Europeu (com Portugal) e já ficou em 4º lugar no Mundial (também com Portugal). Bento também pode dizer que o seu modelo tem virtudes: 4º lugar no Europeu e uma qualificação in-extremis para o Brasil. Mas julgo que será este Mundial a servir de tira-teimas…


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Camilo Lourenço é licenciado em Direito Económico pela Universidade de Lisboa. Passou ainda pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque e University of Michigan, onde fez uma especialização em jornalismo financeiro. Passou também pela Universidade Católica Portuguesa. Entre a sua experiência profissional encontramos redator principal do “Semanário Económico” (desde 1988); coordenador da secção Nacional do “Diário Económico” (de que foi um dos fundadores) desde 1990. Diretor adjunto da revista “Valor”, que ajudou a fundar (1992). Diretor da mesma revista (1993), onde se manteve até 1995. Editor de Economia da Rádio Comercial, de 1992 a 1997. Diretor editorial das revistas masculinas da Editora Abril/Controjornal: “Exame” (revista que também dirigiu); “Executive Digest”, entre outras. Comentador de assuntos económicos da Rádio Capital, de 2000 a 2005. Diretor da revista “Maisvalia” (de 2003 a 2005). Comentador da RTP e RTP Informação, onde passou também a apresentar o programa “A Cor do Dinheiro” (desde 2007). Colunista do “Jornal de Negócios (desde 2007); comentador de assuntos económicos da Media Capital Rádios (desde 2010). Numa das rádios do grupo, a M80, apresenta dois programas: “Moneybox” e “A Cor do Dinheiro”. Comentador de assuntos económicos da televisão generalista TVI, onde apresenta “Contas na TV”. A par destas funções, Camilo Lourenço é docente universitário. Lecionou na Universidade de Lisboa, na Universidade Lusíada e no Instituto Superior de Comunicação Empresarial. Por outro lado leciona pós-graduações e MBA. Em 2010, por solicitação de várias entidades (portuguesas e multinacionais), começou a fazer palestras de formação, dirigidas aos quadros médios e superiores, em áreas como Liderança, Marketing e Gestão. Em 2007 estreou-se na escrita, sendo o seu livro mais recente “Saiam da Frente!”, sobre os protagonistas das três bancarrotas sofridas por Portugal que continuam no poder.

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