Momento Basilar de Liderança: a Grécia e a Europa - Carlos Oliveira
Há momentos nas nossas vidas pessoais que exigem decisões cujo impacto é determinante e irreversível e para o qual ninguém nos preparou. Não podemos adiar, nem passar a responsabilidade, ou mesmo melhorar as premissas em questão. Esses são momentos muito difíceis, porque sabemos que nos vão marcar a vida inteira, para o bem ou para o mal.

Quando esses momentos envolvem a vida de uma empresa ou de uma sociedade, ou seja, de outros para além de nós, confrontamo-nos com situações basilares de liderança. As negociações sobre a evolução da Grécia na Europa correspondem a um desses momentos.
Estas decisões são por natureza solitárias, em que um líder tem de ir para além da sua legitimidade imediata, pois não há tempo para consulta nem debate. Está ali para tomar decisões por todos. Estes vão cobrar-lhe pelos resultados, não pela sua intenção.
Haverá Um Caminho Certo? Nestes momentos decisivos, qual o referencial que leva os líderes para o caminho certo?
A.
A opinião daqueles que representam? Essa base é insuficiente. Cada um de nós terá a sua ideia de qual o caminho certo (outros nem por isso), que não soma para um todo coerente e consistente ou imutável no tempo. Haverá sempre quem concorde e quem discorde. E as pessoas não têm a informação relevante naqueles momentos em que a decisão tem de ser tomada.
B.
Os interesses daqueles que os líderes representam? Esta base também é insuficiente. Nem sempre é claro como os impactos de dada decisão se irão entrelaçar para refletir os interesses que os líderes representam. Adicionalmente, sabemos que uma solução adequada exige, não a imposição dos interesses de uma das partes (que serão desfeitos logo que a relação de poderes se altere), mas a harmonização possível dos interesses de todos para um equilíbrio estável.
C.
Então qual é o principal referencial de decisão? Penso que o principal referencial para as decisões dos líderes em momentos basilares de liderança, deverá ser o conjunto de causas em que acreditam e a correspondente visão do futuro. Neste caso da Grécia, há convergência suficiente dos valores que suportam a ideia de Europa e da visão da Europa no futuro? Se a reflexão e a conversa começar por aí, a decisão de ir por um lado ou por outro torna-se mais clara, mais fácil de tomar e mais fácil de conviver com as suas consequências.
A Situação Grega A Grécia ser resgatada novamente e continuar no Euro e na União Europeia, deveria depender da confluência de valores entre gregos e europeus, mais do que de pensamento económico ou de cálculos eleitorais. Apesar desses também contarem (e muito, pois o pragmatismo tem muito peso e entra na equação), deveriam ter um peso relativo e não dominante.
Uma visão de uma Europa mais federal, mais solidária em termos sociais, mais integrada politica, social e economicamente, menos ortodoxa monetariamente, orientará os líderes europeus para tentarem tudo para não deixarem cair a Grécia.
Mas esta visão só é possível com uma Europa de disciplina e responsabilidade financeira, que evite crises financeiras futuras, com graves consequências sociais. Esta disciplina responde, não a fatores ideológicos, mas a fatores sócio económicos que marcarão as próximas décadas: a evolução demográfica europeia; a emergência imparável de poderes económicos que reduzem todos os anos o poder económico relativo da Europa; as atuais dificuldades em controlar o capitalismo financeiro e especulativo global; as alterações sociais provocadas pelo facto das pessoas, através dos meios digitais, serem hoje produtoras e não simples consumidoras de informação.
Compete pois também aos líderes gregos saberem ou conseguirem inserir-se nesta ideia de Europa solidária, mas equilibrada financeiramente e melhor blindada a crises futuras. Equilíbrio político exige correspondente equilíbrio financeiro.
Haverá essa convergência de valores entre gregos e europeus que secundariza todas as outras contabilidades? Seja qual for a evolução - continuidade ou saída da Grécia do Euro e da União Europeia - o que interessa é que essa decisão surja em consequência de opções de fundo e não de contabilidades menores. Se for tomada por decisões de fundo, passado o impacto inicial, tudo confluirá para um equilíbrio sustentável e melhoria para todas as partes. Se for tomada por contabilidades menores, a crise irá reemergindo de tempos-a-tempos.
Tenho uma opinião, assim como o leitor. Mas nesta fase, são irrelevantes. Este é o momento dos líderes enfrentarem os seus momentos basilares.
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Carlos Miguel Valleré Oliveira é CEO da Leadership Business Consulting, empresa internacional de consultoria de gestão presente em 8 países, África do Sul, Angola, Brasil, Cabo Verde, Estados Unidos da América, Espanha, Moçambique e Portugal. Assina quinzenalmente a rubrica "Ponto de Vista" no Portal da Liderança sobre os temas da liderança-gestão, economia-sociedade e inovação-empreendedorismo. Mais informações
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