3 Erros de Liderança do Syriza, Segundo os Gurus da Gestão – Carlos Oliveira
Cansados de austeridade e ressentidos por estarem sob os ditames tecnocráticos dos credores europeus, o eleitorado grego elegeu o Syriza na esperança que os liderasse para um futuro melhor. Mesmo fora da Grécia havia uma certa simpatia pela complicada situação grega, especialmente em Portugal, que também passou por este processo, embora com relativo sucesso.

Em menos de um mês após tomar posse, o governo do Syriza desperdiçou uma situação favorável e piorou a situação da Grécia e da Europa. Este feito singular resulta de três erros de liderança, que podem ser melhor percebidos com o apoio de ensinamentos de vários gurus da gestão.
É necessário restaurar a confiança entre as partes, focar no pragmatismo e evitar ações que promovam o crescimento dos extremos, na Alemanha e países do norte da Europa, e na Grécia e países do sul. Se isso não acontecer, o maior perdedor será a Grécia. A Europa tem de também corrigir alguns pontos, mas a chave do compromisso necessário está no Syriza.
Oportunidade Única O novo governo grego teve uma boa oportunidade de fazer melhorias no programa de resgate da Grécia, de contribuir para aliviar a ortodoxia da austeridade e de reforçar o novo rumo que a Europa já está a tomar na política económica, como comprova o
quantitive easing. Tinha uma legitimidade reforçada por eleições recentes. O pior do esforço financeiro e social já tinha sido feito pelos dois anteriores governos, pelo que não tinha o ónus de aplicar novas medidas draconianas. Herdaram uma Grécia com resultados positivos para mostrar, em termos de cumprimento dos compromissos no âmbito do Memorando com a Troika. A situação social muito degradada fornece condições para negociar melhorias no programa da Troika. O elevado peso da dívida requer, mais cedo ou mais tarde, soluções inovadoras e cautelosas.
Os Resultados São a Única Regra de AvaliaçãoO Syriza pode verificar com os líderes empresariais que o seu futuro será ditado pelos resultados e não pelas intenções ou retórica. Ora os resultados ao fim de um mês não são animadores.
A situação financeira, económica e política da Grécia piorou. A confiança dos parceiros europeus na Grécia é hoje menor. O FMI e o BCE, os dois parceiros da Troika tradicionalmente mais flexíveis e apoiantes, manifestaram publicamente que a Grécia tem de fazer muito mais para obter apoios futuros. Foram retirados 20 mil milhões de euros dos bancos gregos pela população, ou seja, 10% do PIB da Grécia. As taxas de juros sobre a dívida grega dispararam novamente para valores acima dos 10% a 3, 5 ou 10 anos. A coesão política e a estabilidade social começam a regredir novamente.
- Erro 1 – Hubris de Jim Collins
Jim Collins refere a hubris, ou seja, a arrogância e a sobranceria, como a principal atitude que inicia o processo de decadência das boas empresas. O recém-eleito Syriza foi um exemplo extremado de hubris. Três exemplos:
- No dia da eleição, o Syriza decretou o fim da crise. Nem mais. Assim mesmo, fácil. Era só anunciar e já está. Ninguém se lembrou disso antes.
- O Syriza apresentou-se como a única entidade que tinha legitimidade democrática, menorizando o facto dos outros países também resultarem de eleições e terem de responder perante os seus eleitorados (a Alemanha tem um governo de coligação que representa algo como 65% dos votos das últimas eleições).
- Na semana seguinte à sua eleição, o Syriza passou os dias a dar lições públicas de economia à União Europeia, dizendo que iriam promover as correções necessárias à política económica europeia, não só para bem dos gregos, mas de todos os europeus. Apregoaram-se quase como que os salvadores da Europa.
A superioridade e a arrogância de quem é recém-eleito, que não tem experiência de governação, que nada provou e que vive da solidariedade europeia de vários milhões, é um erro grave que desacreditou o Syriza perante os outros governos europeus, e que distanciou os seus iniciais potenciais aliados – a França, a Itália e o Reino Unido.
- Erro 2 – "Não Entre Numa Batalha Que Não Pode Ganhar" - Sun Tsu, A Arte da Guerra
Sun Tsu, em a
Arte da Guerra, salienta dois preceitos estratégicos fundamentais e que resultam do bom senso: i) conheça o terreno antes de ir para uma batalha e ii) não entre numa batalha que não pode ganhar.
A agressividade e a hostilização militante relativamente ao governo alemão e aos alemães, que o Syriza manifestou e incentivou noutros congéneres europeus e na opinião pública, é um erro grave cujo sentido prático é difícil de compreender.
A Alemanha tem um forte ascendente sobre a União Europeia de hoje, tendo em atenção a força da sua economia e o seu contributo financeiro para as políticas europeias – são eles que pagam a maior parte das contas. O eleitorado alemão, do lado oposto ao eleitorado grego, não quer contribuir mais para a Grécia ou para com os países do sul da Europa. O governo alemão tem de fazer um equilíbrio entre o seu eleitorado e a solidariedade europeia.
Os alemães foram os principais financiadores dos fundos comunitários que entraram na Grécia nos últimos 20 anos, são os principais financiadores do resgate grego, são os principais emissores de turistas para a Grécia e são quem mais peso tem numa solução negociada para a Grécia.
Hostilizar militantemente a entidade de quem mais se depende e o mais importante decisor só pode ter um resultado. Quem quer comprar esta guerra?
Mas o Syriza vai mais além a escolher batalhas inconvenientes. Em vez de atrair a simpatia e o apoio de quem passou por experiências próximas, como é o caso de Portugal e de Espanha, elege-os como inimigos públicos para efeitos de ganhos na política interna. Mas é na política europeia que se joga o futuro da Grécia e a falta de apoio destes países deixa a situação grega mais indefensável aos olhos dos cidadãos dos outros países europeus.
- Erro 3 – A Arte da Negociação de Fisher & Uri e a Confiança
Fisher & Uri salientam como pontos fundamentais de uma boa negociação (
non-adversarial bargaining) a confiança entre as partes e a procura do
win-win. A chantagem não é uma boa forma de construir confiança entre as partes. Começar a conversa com “Ou nos dão o que queremos ou a Europa colapsa, primeiro vai Portugal e a Itália e depois tudo o resto”, não suscitou grande solidariedade dos outros países europeus, especialmente os referenciados diretamente.
Uma das regras da política europeia é a procura de um equilíbrio entre todos os seus membros. Posições de rotura não são bem vistas. Um dia a ameaça das consequências da saída da Grécia do Euro já não vai chegar para segurar os gregos.
A divulgação pública repetida de conversas internas também não é um comportamento que faça a Grécia ser mais bem aceite por aqueles com quem tem de negociar o seu futuro.
A Dura RealidadeO Syriza e alguns notórios teóricos (tantos livros!) convenceram-se a eles próprios e a parte da população, de que a culpa do sofrimento social é do resgate e da Troika. Externalizaram a culpa e portanto também a solução do problema. É fácil cair nessa fabulação ou manipulação junto das pessoas que sofrem, uma vez que a penalização social é o resultado natural (o reverso da medalha) da austeridade, infelizmente necessária, para o reequilíbrio financeiro.
No entanto, o ponto fundamental é que a austeridade não é uma política económica desejada por ninguém. Por ninguém. É um resultado imposto pelo elevado endividamento, quando atinge o ponto de rotura, para evitar males ainda maiores, ou por simples imposição de credores. Quando se atinge a banca rota simplesmente não há dinheiro, independentemente dos modelos económicos em que se acredite, que são válidos apenas numa situação de normalidade. A austeridade grega foi uma consequência matemática e material do endividamento excessivo e dos erros acumulados ao longo de muitos e muitos anos pelos gregos – líderes e população – que, no caso deste país, incluiu falsificação de contas ao longo de anos e uma cultura de desresponsabilização e de facilitismo. A Troika foi quem estava à mão, e ainda bem para os gregos e europeus, para resolver a situação da forma menos dolorosa possível, pois as alternativas são bem piores, como se verá se as negociações entre a Grécia e a Europa falharem.
Qual o Futuro? Confrontado com uma realidade distinta do que prometeu aos eleitores, o Syriza pode radicalizar o discurso e insistir neste tipo de erros ou convergir para o pragmatismo focado nos resultados. Para já, o Syriza recuou em quase tudo, tirando alguma retórica para consumo interno, e a meta do excedente primário. A Europa deveria amaciar também a posição do seu lado, mantendo os fundamentais.
A situação financeira e económica grega é muito complicada de resolver. Requer muito cuidado. Assumindo que o Syriza, ou os gregos, optam pelo mesmo conjunto de valores da União Europeia (
ver artigo), o Syriza tem de equilibrar a retórica ideológica para o consumo interno, com a satisfação dos credores a nível europeu. O Syriza terá de escolher entre o bem-estar do povo que representa ou a preservação da sua imagem. Uma verdadeira prova de liderança.
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Carlos Miguel Valleré Oliveira é CEO da Leadership Business Consulting, empresa internacional de consultoria de gestão presente em 8 países, África do Sul, Angola, Brasil, Cabo Verde, Estados Unidos da América, Espanha, Moçambique e Portugal. Assina quinzenalmente a rubrica "Ponto de Vista" no Portal da Liderança sobre os temas da liderança-gestão, economia-sociedade e inovação-empreendedorismo. Mais informações
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