São cada vez mais as vezes que dou comigo a pensar neste assunto. Os dias passam e as situações em que não estamos atentos aos outros, e muito menos disponíveis, acumulam-se, parecendo ninguém dar por isso e muito menos fazer alguma coisa para inverter a situação.
Estaremos a viver uma crise de valores, decorrente das mudanças que se têm vindo a operar na forma como educamos os mais novos e do mundo cada vez mais competitivo e feroz em que vivemos? Será do facilitismo com que hoje muitos são educados, onde quase tudo lhes chega sem terem de merecer/trabalhar para isso e são, muitas vezes, compensados materialmente pelas ausências de quem os devia acompanhar?
Viveremos hoje um fenómeno de egoísmo quase viral? Pensemos. Nos transportes públicos, ninguém está atento a ninguém e muito menos cede o lugar sentado aos que mais precisam. Nas ruas, andamos apressados, sem olhar à volta, sem parar, sem ceder passagem, de rosto cerrado e, quando alguém nos sorri e troca umas palavras simpáticas connosco, a nossa primeira reação é de desconfiança e começamos logo a pensar o que nos estará este a querer vender. Verdade?
O mesmo acontece nas empresas, nas equipas que integramos. As pessoas são teoricamente muito bem selecionadas, muito competentes, experientes, mas depois revelam-se extremamente fracas ao nível relacional e com imensas dificuldades em conseguirem efetivamente integrar e trabalhar em equipa.
No primeiro ano em que estive no Conselho da Europa, e em que trabalhávamos “aquela dificuldade de ter e trabalhar em equipas multiculturais e multirreligiosas”, como dizíamos, uma bispa norueguesa que dava formação comigo, quando eu me queixava que não ia ser fácil colocar um judeu a trabalhar ao lado de um muçulmano, sem que houvesse alguns momentos mais acesos de troca de impressões, disse-me algo que nunca mais esqueci.
Há apenas três tipos de pessoas possíveis de recrutar e cabe a quem decide saber quem quer consigo. O difícil não é trabalharem em conjunto, o difícil é conseguir identificar, durante o recrutamento, a qual dos três tipos pertencem e conseguir trazer para a equipa apenas as que nos interessam e conseguem compor uma equipa de elevada performance.
Quais os três tipos a que ela se referia?
Há aqueles que não dão nada e só querem receber, os que não olham a meios para atingir os fins e estão numa empresa/equipa para chegarem a determinado sítio/posição/remuneração, os que observam os que os rodeiam e estão na equipa pelo que estes lhes podem dar/fazer. Para estes, é tudo um jogo, onde as movimentações certas os levarão onde querem chegar e os destroços que deixam pelo caminho não têm qualquer importância, sejam eles pessoas ou mesmo empresas.
Depois, há aqueles que só dão na medida em que recebem. Eu ajudo-te se me ajudares; eu arranjo-te este contacto se me arranjares aquele; eu ensino-te a fazer isto se me fizeres aquilo; eu … Já percebeu o tipo de pessoa, certo? Com estes, já podemos fazer alguma coisa, mas apenas quando conseguimos convencê-los de que têm a ganhar em juntarem-se à equipa/tarefa.
Por fim, há aqueles que ajudam gratuitamente, que veem para além do seu interesse pessoal, dos quais dizemos que “vestem a camisola”, que se dedicam, ajudam os colegas, ensinam, apoiam, estão sempre disponíveis quando é preciso um esforço extra e que levam o trabalho em equipa a todo um novo patamar. O objetivo máximo destes é o sucesso da equipa e da empresa, regozijando-se com as conquistas de todos, e não apenas as suas, e que habitualmente contribuem para um bom ambiente de trabalho.
Poderá estar a pensar que falta aqui um quarto grupo: aqueles que estão fechados em si mesmos, que não dão nada nem pretendem receber nada. Mas esses nem sequer devem ser referidos quando dizemos a palavra equipa. Qual equipa? Pois, estes não querem nem precisam de equipa nenhuma!
Há várias formas de conseguir aferir a qual destes tipos de pessoas determinado potencial candidato pertence. Afinal, é tudo uma questão de atitude e de disponibilidade!
Há dias, alguém partilhou comigo uma nova técnica de recrutamento que tinha usado para tentar perceber que tipo de pessoa tinha à sua frente. Contava-me que tinha combinado com a sua assistente a seguinte metodologia: esta apresentava-se vestida de forma simples, procurando passar a imagem de que não detinha qualquer tipo de poder ou influência na empresa e era apenas a rececionista do escritório; ao receber os candidatos, fá-los-ia esperar algum tempo, para ver se tinham autocontrolo suficiente; pelo meio, algo acontecia com a assistente (alguma coisa caía e/ou esta tentava meter conversa com eles), o que permitia aferir como estes a tratavam e quão disponíveis estavam, de uma forma gratuita.
Que tipo de pessoas tem na sua equipa?
Trabalham realmente em equipa ou individualmente, sob uma aparente fachada de equipa unida e feliz?
Quantos são aqueles com que realmente pode contar na hora da verdade?
Que tipo de pessoas procura
recrutar para a sua equipa?
E quem acaba realmente por ter
ao seu lado?
E que tipo de pessoa é você para a sua equipa?
Convido-o a ver este
vídeo que correu as redes sociais na semana passada, em que
Barack Obama, Presidente dos EUA, demonstra que está atento e se preocupa com todos os elementos da sua equipa e os coloca acima de qualquer protocolo e a par consigo.
Juntarmo-nos é começo. Mantermo-nos juntos é progresso. Trabalharmos juntos é sucesso.” - Henry Ford