Quem tem na sua equipa e quem anda a recrutar? - Fátima Rodrigues

  
Já reparou como são cada vez menos aqueles que estão atentos aos outros? Aqueles que estão disponíveis para ajudar gratuitamente pelo bem maior? Dos que trabalham consigo, quantos são aqueles com que realmente pode contar, que estão atentos e trabalham pelo bem maior?

quem-recruta-equipa

São cada vez mais as vezes que dou comigo a pensar neste assunto. Os dias passam e as situações em que não estamos atentos aos outros, e muito menos disponíveis, acumulam-se, parecendo ninguém dar por isso e muito menos fazer alguma coisa para inverter a situação.

Estaremos a viver uma crise de valores, decorrente das mudanças que se têm vindo a operar na forma como educamos os mais novos e do mundo cada vez mais competitivo e feroz em que vivemos? Será do facilitismo com que hoje muitos são educados, onde quase tudo lhes chega sem terem de merecer/trabalhar para isso e são, muitas vezes, compensados materialmente pelas ausências de quem os devia acompanhar?

Viveremos hoje um fenómeno de egoísmo quase viral? Pensemos. Nos transportes públicos, ninguém está atento a ninguém e muito menos cede o lugar sentado aos que mais precisam. Nas ruas, andamos apressados, sem olhar à volta, sem parar, sem ceder passagem, de rosto cerrado e, quando alguém nos sorri e troca umas palavras simpáticas connosco, a nossa primeira reação é de desconfiança e começamos logo a pensar o que nos estará este a querer vender. Verdade?

O mesmo acontece nas empresas, nas equipas que integramos. As pessoas são teoricamente muito bem selecionadas, muito competentes, experientes, mas depois revelam-se extremamente fracas ao nível relacional e com imensas dificuldades em conseguirem efetivamente integrar e trabalhar em equipa.

No primeiro ano em que estive no Conselho da Europa, e em que trabalhávamos “aquela dificuldade de ter e trabalhar em equipas multiculturais e multirreligiosas”, como dizíamos, uma bispa norueguesa que dava formação comigo, quando eu me queixava que não ia ser fácil colocar um judeu a trabalhar ao lado de um muçulmano, sem que houvesse alguns momentos mais acesos de troca de impressões, disse-me algo que nunca mais esqueci.

Há apenas três tipos de pessoas possíveis de recrutar e cabe a quem decide saber quem quer consigo. O difícil não é trabalharem em conjunto, o difícil é conseguir identificar, durante o recrutamento, a qual dos três tipos pertencem e conseguir trazer para a equipa apenas as que nos interessam e conseguem compor uma equipa de elevada performance.

Quais os três tipos a que ela se referia?

Há aqueles que não dão nada e só querem receber, os que não olham a meios para atingir os fins e estão numa empresa/equipa para chegarem a determinado sítio/posição/remuneração, os que observam os que os rodeiam e estão na equipa pelo que estes lhes podem dar/fazer. Para estes, é tudo um jogo, onde as movimentações certas os levarão onde querem chegar e os destroços que deixam pelo caminho não têm qualquer importância, sejam eles pessoas ou mesmo empresas.

Depois, há aqueles que só dão na medida em que recebem. Eu ajudo-te se me ajudares; eu arranjo-te este contacto se me arranjares aquele; eu ensino-te a fazer isto se me fizeres aquilo; eu … Já percebeu o tipo de pessoa, certo? Com estes, já podemos fazer alguma coisa, mas apenas quando conseguimos convencê-los de que têm a ganhar em juntarem-se à equipa/tarefa.

Por fim, há aqueles que ajudam gratuitamente, que veem para além do seu interesse pessoal, dos quais dizemos que “vestem a camisola”, que se dedicam, ajudam os colegas, ensinam, apoiam, estão sempre disponíveis quando é preciso um esforço extra e que levam o trabalho em equipa a todo um novo patamar. O objetivo máximo destes é o sucesso da equipa e da empresa, regozijando-se com as conquistas de todos, e não apenas as suas, e que habitualmente contribuem para um bom ambiente de trabalho.

Poderá estar a pensar que falta aqui um quarto grupo: aqueles que estão fechados em si mesmos, que não dão nada nem pretendem receber nada. Mas esses nem sequer devem ser referidos quando dizemos a palavra equipa. Qual equipa? Pois, estes não querem nem precisam de equipa nenhuma!

Há várias formas de conseguir aferir a qual destes tipos de pessoas determinado potencial candidato pertence. Afinal, é tudo uma questão de atitude e de disponibilidade!

Há dias, alguém partilhou comigo uma nova técnica de recrutamento que tinha usado para tentar perceber que tipo de pessoa tinha à sua frente. Contava-me que tinha combinado com a sua assistente a seguinte metodologia: esta apresentava-se vestida de forma simples, procurando passar a imagem de que não detinha qualquer tipo de poder ou influência na empresa e era apenas a rececionista do escritório; ao receber os candidatos, fá-los-ia esperar algum tempo, para ver se tinham autocontrolo suficiente; pelo meio, algo acontecia com a assistente (alguma coisa caía e/ou esta tentava meter conversa com eles), o que permitia aferir como estes a tratavam e quão disponíveis estavam, de uma forma gratuita.

Que tipo de pessoas tem na sua equipa?
Trabalham realmente em equipa ou individualmente, sob uma aparente fachada de equipa unida e feliz?
Quantos são aqueles com que realmente pode contar na hora da verdade?
Que tipo de pessoas procura recrutar para a sua equipa?
E quem acaba realmente por ter ao seu lado?
E que tipo de pessoa é você para a sua equipa?

Convido-o a ver este vídeo que correu as redes sociais na semana passada, em que Barack Obama, Presidente dos EUA, demonstra que está atento e se preocupa com todos os elementos da sua equipa e os coloca acima de qualquer protocolo e a par consigo.

Juntarmo-nos é começo. Mantermo-nos juntos é progresso. Trabalharmos juntos é sucesso.” - Henry Ford


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FCR-Inverno-2Fátima Rodrigues é gestora do Portal da Liderança e editora de conteúdos da Leadership Business Consulting, tendo sido coordenadora editorial da área de business do grupo Almedina e lecionado na Congrégation Saint-Joseph de Cluny. Esteve ligada vários anos ao Conselho da Europa, onde exerceu funções de formadora do GERFEC em relações interculturais e interreligiosas em contexto corporativo e social. É fundadora e administradora geral do projeto online de fomento à leitura Segredo dos Livros. Mais informações aqui .

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