Porque é tempo de valorizar o que nos une – Fátima Rodrigues

  
Basta ler os títulos da imprensa diária para ficar claro que vivemos numa sociedade que tende a olhar para o que nos separa, em vez de destacar e de valorizar o que nos une. Teremos pouco em comum ou andamos a valorizar o que não devíamos?

CPLP-Lusofonia-Parcerias-Bloco-Angola

Li há dias na imprensa o seguinte título “Portugal está a tornar-se uma colónia financeira de Angola" (1). O mesmo artigo poderia ser visto de outra perspetiva e surgir com, por exemplo, o título “Angola investe em Portugal”. O artigo discorre sobre investimentos e compras de artigos de luxo de angolanos em Portugal, saltando para o tema dos recursos humanos portugueses que rumam a Angola. Tudo acompanhado de uma pitadinha de maledicência e diz que disse.

E se, em vez de andarmos a perder tempo a encontrar o que nos separa, nos dedicássemos antes ao que nos une?

“Angola e Portugal reúnem esforços”. Eu escreveria assim. Angola investe financeiramente em Portugal, que se encontra a captar investimento externo. Já Portugal, que dispõe de muitos recursos humanos com boa formação, e são muitos por todo o mundo os que gabam o talento português, e estando aquele país a captar talentos que ajudem no seu rápido crescimento e desenvolvimento, colabora nesse sentido com Angola.

Pensando que somos todos filhos da cultura portuguesa e que há uma grande língua que nos une, porque não ajudarmo-nos mutuamente como povos irmãos? Não seremos juntos muito mais fortes do que separados?

Celebra-se a 5 de maio o Dia da Cultura Portuguesa, promovido pela CPLP e celebrado em todo o espaço lusófono.

5 de maio é um dia especial, um dia que assinala o que nos une e que clama hoje por atenção. Atenção e valorização do que nos une, um mundo de hipóteses fantásticas de cooperação entre Estados; de possibilidades e parcerias de negócios ao nível privado; de como o que nos diferencia pode ser uma mais-valia e o segredo para ainda sermos mais fortes e ricos naquilo que nos une.

Acredito que, para tal, bastará a vontade de todos, a tolerância e a compreensão no que diferimos, e a valorização do que temos em comum.

Como nas peças de um puzzle, somos todos diferentes, mas, se olharmos atentamente, com dedicação e boa vontade, todos encaixamos uns nos outros e juntos formamos um só, com possibilidades e oportunidades infinitas.

Os jornalistas? Os títulos? Esses só existem porque deixamos. Porquê? Porque está provado que um título negativo atrai muito mais a atenção do leitor do que um positivo. Se, colocando o foco no negativo, se vendem mais jornais e se geram mais visualizações, porque colocá-lo no positivo, quando o objetivo é vender mais?

Está na mão de todos nós inverter esta tendência, desvalorizando a situação e colocando o foco na perspetiva mais acertada.

Já alguma vez reparou nas estantes dos livros de autoajuda, ou desenvolvimento pessoal como agora lhes chamam, nas livrarias? Atrevo-me a dizer que, pelo menos uns 90% deles, acabam todos a proporem e a incentivarem a que façamos o mesmo: mude a sua forma de pensar do negativo para o positivo, seja otimista! E provam-lhe por A mais B que, assim, conseguirá ser mais feliz, ter os outros consigo, conquistar mais e gerar uma maior riqueza.

Mas parece que os focos noticiosos andam a trabalhar no sentido oposto. Já me deu para pensar se os media não terão uma parceriazinha com os profissionais do foro psicológico, com os autores de livros de autoajuda, e por aí fora. Afinal estão tão ativamente a contribuir para o aumento dos seus clientes!...

Agora, fora de brincadeira, são várias as efemérides deste dia que nos recordam vidas dedicadas a uma causa, pessoas que não perderam o foco, independentemente das batalhas travadas.

Em 1821, falecia a 5 de maio Napoleão Bonaparte, um dos maiores génios militares da História.
Em 1920, Santa Joana d'Arc era canonizada a 5 de maio pelo Papa Bento XV em Roma.
Em 1949, a 5 de maio, foi criado o Conselho da Europa, a mais antiga organização política da Europa ainda em funcionamento.
5 de maio assinala ainda no Brasil o Dia do Líder Comunitário.
E na China é um dia de celebração, o Dia do Dragão, animal considerado um símbolo nacional chinês.

5 de maio está aí. O que lhe parece de começar um novo rumo?

Napoleão disse certo dia que “Só há duas razões que levam o homem à ação: o medo e a motivação”.

Estaremos hoje motivados a valorizarmos o que nos une, ou vivemos amedrontados com o que nos separa?

(1) Fonte: Expresso

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FCR-Inverno-2Fátima Rodrigues é gestora do Portal da Liderança e editora de conteúdos da Leadership Business Consulting, tendo sido coordenadora editorial da área de business do grupo Almedina e lecionado na Congrégation Saint-Joseph de Cluny. Esteve ligada vários anos ao Conselho da Europa, onde exerceu funções de formadora do GERFEC em relações interculturais e interreligiosas em contexto corporativo e social. É fundadora e administradora geral do projeto online de fomento à leitura Segredo dos Livros. Mais informações aqui .

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