Quando a meritocracia mete férias – Fátima Rodrigues

  
Meritocracia. Sabe o que é? E dá-lhe valor ou é apenas um nome pomposo que usa quando lhe perguntam qual o principal critério que utiliza para promover e contratar na sua empresa?

Meritocracia-promocoes-recrutamento

Confesse lá. Está nesse cargo porque o seu desempenho e competências o mereciam ou por outra qualquer razão? E quem tem vindo a contratar e a promover? Estão consigo porque têm e acrescentam valor à equipa ou porque até dá jeito? Ou, quem sabe, porque são tão simpáticos e dizem-lhe sempre que sim a tudo, num sem fim de coisas agradáveis que tanto lhe acariciam o ego? Ou mesmo porque alguém “importante” estava a necessitar de um lugar para outro alguém e fez-lhe o jeitinho?

A Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) promoveu um estudo em que oito investigadores avaliaram a fundo o funcionamento de seis instituições portuguesas consideradas estratégicas para o desenvimento económico e social.

"Valores, Qualidade Institucional e Desenvolvimento em Portugal" é como se chama o estudo. Em mais de 350 páginas, fica a conclusão de que, no geral, as organizações em causa até funcionam bem, contando com bastantes novos procedimentos e tecnologias. O problema surge quando se fala em recrutamento e promoções. Segundo este, o facto de se desempenhar um trabalho de forma competente tem muito pouco peso na hora das promoções e da progressão profissional dos colaboradores.

João Gabriel Silva, reitor da Universidade de Coimbra, já tinha referido** recentemente, que “Em Portugal não se reconhece o mérito”. “Ter o partido ou o amigo certo” continua a pesar mais que a competência nas nomeações.

Será o mérito quase irrelevante para muitas empresas públicas e privadas?

Que importância tem na sua empresa? Quantas pessoas conhece ou já contratou/promoveu por meritocracia?

E se perguntássemos aos seus colaboradores e colegas, se acreditam que, se seguirem as regras e fizerem o seu trabalho de modo competente, serão promovidos? Quantos acha que diriam que sim? No caso do estudo da FFMS, dos 1 346 colaboradores das seis entidades em causa, apenas cerca de 16% disseram que sim, sendo que numa ninguém respondeu afirmativamente a esta questão. 

Então, se a meritocracia não é vista como a base do recrutamento e promoção nestas instituições, quais os critérios que os colaboradores apontaram como os que pensam que são usados? Aspetos muito preocupantes, diria eu. Entre eles: "cor do governo", os "pequenos favores" e as "relações pessoais ou políticas", numa; muitas promoções dependentes das "relações pessoais", noutra; "diretores influentes e praticamente inamovíveis", "permeabilidade a lealdades ideológicas", numa terceira.

Perante tudo isto, atrevo-me a perguntar onde é que pretendemos chegar. Por acaso, alguém consegue fazer omeletes sem ovos? Então, se não, estão à espera de crescer, de atingir objetivos e de conseguirem reter talentos preciosos que lhes permitam um crescimento sustentável, sem os premiar, ou mesmo contratar? Partindo do princípio de que todos acreditamos que as empresas são o que são mediante quem empregam, quase num "diz-me quem empregas e dir-te-ei onde vais chegar", não estará na altura de mudar de comportamentos?

Falámos aqui, há umas semanas, sobre as bem-sucedidas práticas de recrutamento da Google. Já tínhamos falado nas da Southwest Airlines e de como retinham os talentos. São inúmeros os bons exemplos que encontramos lá fora. Mas também os há cá dentro e também já falámos em alguns deles, como aconteceu com a BIAL e com o grupo Delta.

O que falta então para que as boas práticas sejam generalizadas e que conclusões como as deste estudo sejam coisa do passado?

Lideramos na vanguarda e voltados para o futuro, ou persistimos em fingir que lideramos, agindo sob práticas danosas, quer para o longo-prazo das empresas, quer para os envolvidos, líderes, liderados e clientes/utentes?

Desafio todos a pensarem e a agirem no sentido da contracorrente. Se todos avançarmos no mesmo sentido, mesmo que alguns remem para o outro lado, a força será maior e conseguiremos virar o barco e, quem sabe, daqui a um tempo estaremos a dizer que, afinal, a meritocracia já voltou das longas férias que tinha tirado!


Fontes: TSF*; Económico**


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FCR-Inverno-2Fátima Rodrigues é gestora do Portal da Liderança e editora de conteúdos da Leadership Business Consulting, tendo sido coordenadora editorial da área de business do grupo Almedina e lecionado na Congrégation Saint-Joseph de Cluny. Esteve ligada vários anos ao Conselho da Europa, onde exerceu funções de formadora do GERFEC em relações interculturais e interreligiosas em contexto corporativo e social. É fundadora e administradora geral do projeto online de fomento à leitura Segredo dos Livros. Mais informações aqui .

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