Dei por mim um dia destes a chegar à conclusão de que há três motivações que são comuns entre quem integra uma qualquer comunidade religiosa, seja de que religião for, e quem integra uma qualquer empresa. Vou referir-me especificamente à religião católica, porque é a que conheço melhor, mas penso que o mesmo se verifica em qualquer outra. Eu, que trabalhei sete anos numa congregação
católica e, sim, muitas foram as paróquias que conheci e as eucaristias em que participei, chego à conclusão de que são basicamente três.
Há pessoas que participam na missa porque (esperamos que sejam a maioria) têm fé, acreditam e sentem-se parte da mesma.
Mas há uma segunda categoria de pessoas que vão à celebração porque querem ser vistas lá, sendo habitual, em certas paróquias, a “guerra” por quem lê uma leitura, canta um salmo… enfim, por quem “aparece” e se destaca. Há certos interesses económicos em que ser visto na igreja e reconhecido pelos outros como muito crente e “de confiança” ajudam a alcançar os objetivos pessoais, por vezes muito pouco católicos, diga-se.
E depois há os que vão ao culto porque são obrigados, simplesmente porque não têm outra alternativa, precisam do apoio da comunidade.
Então e nas empresas, será a situação muito diferente? Pensemos.
Quando analisamos a comunidade de colaboradores de uma dada empresa, o que encontramos?
Temos os que acreditam na organização, que lhe reconhecem valor, que se identificam com a cultura, com o propósito maior, e que sentem que fazem parte da casa. Desejamos, também aqui, que sejam a maioria dos colaboradores, se possível que sejam todos! Mas se fosse o caso, não estaríamos aqui a ter esta conversa.
Depois, temos os que querem trabalhar nessa empresa por interesses pessoais. Porque é tendo esta empresa no currículo que vão conseguir entrar numa outra que realmente ambicionam. Porque é nesta que vão aprender o negócio, conhecer os clientes, como se trabalha, para daqui a um tempo abrirem a sua própria empresa concorrente a esta. Porque querem aproximar-se da pessoa x, ganhar a sua confiança, acreditando que esta os pode levar ao cargo y ou à empresa z. E outras tantas motivações pessoais, por vezes menos honestas.
E depois temos ainda aqueles que trabalham nessa empresa porque não têm/querem outra alternativa. Quando iniciei a minha vida profissional, tive a oportunidade de trabalhar numa dada organização onde, face à desmotivação geral que se sentia, fui perguntando o porquê de nada fazerem para mudar o que os desmotivava ou, em última instância e quando me diziam que nada adiantaria, porque estavam então ali. Vários foram os que me responderam que estavam porque não tinham outra hipótese. Porque precisavam do dinheiro; porque não sabiam fazer mais nada; porque não conseguiam outro emprego, embora tivessem já enviado e concorrido a muitos outros empregos; etc.
Li na semana passada um grande destaque jornalístico que dizia que as empresas estão neste momento com dificuldades em encontrar os colaboradores com o perfil que procuram. Que investem muito no recrutamento, mas que não conseguem encontrar quem realmente procuram.
Ocorre-me questionar se sabemos que tipo de pessoas queremos nós nas nossas empresas. Procuramos os conhecimentos e os valores certos para integrar a necessidade específica e a nossa cultura organizativa, ou preterimos nos valores a favor dos conhecimentos? O que fará a diferença na motivação e na produtividade geral da equipa? Os conhecimentos específicos e um aparente “enformar” nos valores da casa? Ou o contrário, o perfil humano certo, auxiliado por um plano de desenvolvimento interno, que os dote dos conhecimentos específicos certos em que notamos alguma carência?
E, já agora, que motivação o faz estar aqui hoje nesta organização? Pode o problema estar aí mesmo?
Voltando à igreja, sem esquecer a empresa, por vezes esquecemo-nos de que o maior íman para atrair o que procuramos é sermos nós mesmos a personificação disso mesmo. É o chamado "dar o exemplo". É ser merecedor da credibilidade, do reconhecimento e da inspiração dos que temos atrás de nós, ao nosso lado e à nossa frente. O resto? O resto vem como no íman, por proximidade!