E se lhe pedissem para implantar um microchip na mão? – Fátima Rodrigues

  
E se chegasse um dia à empresa e lhe pedissem para implantar um microchip na mão? E se, em vez da sua empresa, se tratasse de uma medida generalizada e fosse surpreendido por uma determinação do Governo, para que todos os cidadãos o fizessem?

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Parece-lhe o enredo de um filme futurista? Pois desengane-se.

Há umas semanas, foi notícia que uma empresa sueca patrocinou o implante de um microchip na mão dos colaboradores que o desejassem. Este, por agora, permite-lhes abrir portas, operar com as fotocopiadoras e deixar o seu cartão pessoal nos smartphones de quem desejarem, tudo com uma simples passagem da mão. Na calha, estão os pagamentos na cafeteria da empresa.

Trata-se de cerca de 700 colaboradores a quem está a ser dada a oportunidade de implantar na mão um RFID (radio-frequency identification), com o tamanho de um grão de arroz.

Mas as potencialidades que se perspetivam a este tipo de tecnologia vão muito para além do simples abrir de portas e algo mais.

Ora pensemos. Que informação poderíamos dispor num chip implantado na pele da mão, que nos facilitasse a vida e mesmo, eventualmente, pudesse permitir salvá-la?

Ocorre-me que poderíamos acabar com os passaportes, os cartões de cidadão, os cartões dos transportes públicos, a informação médica dispersa e os pagamentos com cartões bancários.

Para além das passwords que deixaria de ser necessário ter sempre na memória e da montanha de cartões que deixaríamos de trazer sempre connosco, seria fundamental para nos salvar a vida em caso de um acidente ou doença súbita, pela informação que os socorristas teriam na hora acerca da saúde do paciente. Ainda falando em situação de socorro, permitiria encontrar pessoas desaparecidas, muitas delas por acidentes ou doença súbita.

Claro que está a pensar: “E a minha segurança e privacidade?”. Não será um falso problema que aceitamos como fundamental e indiscutível?

Pensemos nos dados que já hoje temos na web e que autorizamos x ou y a ter acesso, ou não. Igualmente, o acesso aos dados teria de ser autorizado pelo próprio, como hoje fazemos, por exemplo, com as autorizações de débito direto.
Microchip
Sobre a sua localização e paradeiro? Lamento, mas já hoje vivemos num “big brother” com as câmaras de vigilância que povoam os locais por onde andamos, o sinal de GPS do nosso smartphone, o rasto das compras e pagamentos eletrónicos que fazemos, as cópias de segurança e os dados que armazenamos na cloud e as informações que partilhamos nas redes sociais.

Para tentar perceber qual o grau de sensibilização para estes avanços tecnológicos, fiz um pequeno inquérito a alguns dos colaboradores aqui do escritório. O universo foram 15 pessoas entre os 24 e os 45 anos, de ambos os sexos. Expliquei-lhes o que a dita empresa sueca fez e as potencialidades que via no sistema, ao nível nacional. No final, fiz-lhes duas perguntas: Aceitava se a sua empresa quisesse pagar-lhe o implante? E se fosse o Governo a dar essa opção?

Em todos os casos, a resposta a ambas as perguntas foi igual: sim ou não. Apenas quatro pessoas aceitariam, todas as restantes responderam com um redondo e renitente não.

Antes de avançar com a pergunta, esperava que me argumentassem o facto de ser um método intrusivo e que não admitiam um chip dentro do seu próprio corpo, mas apenas uma das pessoas referiu esse facto. Todas as outras se mostraram receosas ao nível da perda do controlo da sua privacidade e do uso que as informações teriam por terceiros. Apenas os que responderam sim referiram o facto de já viverem num mundo controlado, mas todos apenas adeririam no caso de serem os próprios a controlar as permissões de acesso à informação e a que dados, especificamente.

Será possível, ou desejável, travar este tipo de inovação e avanço tecnológico?

Estaremos mal informados ou iludidos com o aparente controlo que dispomos sobre a informação que terceiros têm sobre nós e os nossos hábitos?

Poderiam as empresas beneficiar deste tipo de tecnologia, sem comprometerem a privacidade dos seus colaboradores?

De que forma viria esta a beneficiá-los e às organizações?

E na ótica dos cidadãos e do país, aceitável ou condenável?

As questões que se levantam são muitas. Mas, se lhe pedissem para implantar um microchip na mão, o que respondia?


Fontes: Reuters / BBC


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Fátima Rodrigues  é gestora do Portal da Liderança e editora de conteúdos da Leadership Business Consulting, tendo sido coordenadora editorial da área de business do grupo Almedina e lecionado na Congrégation Saint-Joseph de Cluny. Esteve ligada vários anos ao Conselho da Europa, onde exerceu funções de formadora do GERFEC em relações interculturais e interreligiosas em contexto corporativo e social. É fundadora e administradora geral do projeto online de fomento à leitura Segredo dos Livros. Mais informações aqui.

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